O risco de sermos humanos

Na edição em que assinalamos dez anos de existência pode-se afirmar que nunca foi tão desafiante pensar e fazer junto, dialogar, aproximar e persistir. As circunstâncias em que vivemos tornam o exercício de construir um encontro com as características do MEXE numa intensa tarefa quotidiana de experimentar equilíbrios, combater cansaços, questionar e consolidar princípios, dissipar confusões, gerar dispositivos de intimidade e imaginar outras configurações para o fazer e o ser.

Quando em 2020, nos espaços de fórum de discussão que nos permitem definir um tema para cada edição, optávamos por – “O Risco” – estávamos longe de saber os múltiplos significados que este ganharia ao longo do desenvolvimento desta proposta. Tem sido, no entanto, nesse risco, e na fragilidade que lhe está associada, que nos temos encontrado – equipa, cidadãos/ãs, comunidades locais, artistas, parceiros/as e entidades promotoras/financiadoras – adaptando-nos e reinventando-nos procurando não perder, no entanto, o sentido ético e estético que nos norteia.

É com foco na necessidade de viver o risco, nas suas facetas múltiplas, que em Julho de 2021, momento em que apresentamos este programa, insistimos em fazer presente sem saber como será o MEXE real em Setembro de 2021. Mas é, justamente, o risco que nos mobiliza à cocriação e que aceitamos continuar coletivamente a correr. Assumindo a indefinição, a instabilidade, o medo bloqueador e o controlo que já se viviam, aspetos atualmente agravados pela pandemia, suportamo-nos na convicção da importância reforçada do confronto, da dissonância, da escuta e da diferença na criação artística, na ação política, na discussão democrática e na vivência comunitária.

Este programa procura amplificar preocupações e desafios, permitindo que as realidades sociais falem por si, convocando estéticas distintas sem imposições hierárquicas cristalizadas e outras maneiras de fazer do ponto de vista artístico e comunitário. Nesta construção, experimentamos a produção de distintas configurações de encontro entre criações e públicos, comunidades e espaços, instituições e processos de criar e programar, protagonistas formais e informais. Empenhamo-nos na produção de micropolíticas do sensível e da atenção. As propostas programáticas aqui apresentadas convocam-nos a expandir os limites do pensável e do imaginado. Para isso propõe-se o cruzamento dos contributos da tecnologia e do pensamento científico, perspetivando as comunidades para além do humano, aprofundando outras relações possíveis com a natureza e procurando construir espaço de afirmação para “invisibilidades” que refletem desigualdades sociais, agravadas pela pandemia.

Em 2021 o MEXE chega pela primeira vez, e em simultâneo, durante duas semanas, a mais duas cidades – Viseu e Lisboa – concretizando-se o desejo de agir e pensar localmente, sem perder a ligação a outros lugares, a diferentes formas de construir comunidade, como aliás é sublinhado com a manutenção, num esforço acrescido no contexto em que vivemos, das propostas internacionais, assim como com o lançamento do MEXE online.

Este é também, e naturalmente, o espaço para agradecer a coragem de continuarmos a ser humanos e de nos arriscarmos na procura de possibilidades para não o deixarmos de ser, experimentando, inclusivamente, o expandir dessa vivência. Um grande bem-haja aos mais de 100 participantes, para além dos investigadores que integram o Encontro Internacional de Reflexão sobre Práticas Artísticas Comunitárias, dos 32 grupos de 6 países que ocuparão 10 espaços de 3 cidades com o suporte de 30 entidades parceiras. Isto é o que hoje vos podemos dizer que sonhamos e preparamos juntos para Setembro de 2021.

Passados dez anos, estamos aqui e continuamos a aprender como MEXER, como regressar ao corpo, como intensificar as experiências e a materialidade. Para viver o risco de sermos humanos ganhamos fôlego na urgência de produzir intimidade, cuidado e reparação – ideias que serão discutidas nesta edição – que nos alimentam o futuro. Fazemos o MEXE conscientes da necessidade de assumir o risco para podermos avançar na reivindicação diária da nossa humanidade numa outra relação connosco, com os outros e com as comunidades não humanas. Fazemos, em 2021, o MEXE com a convicção de que a imaginação artística e comunitária são em si mesmo atos políticos porque experimentam e concretizam mundos, hoje, ainda impossíveis.

Estamos a MEXER.

Hugo Cruz

Diretor Artístico MEXE

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